Fuganti - Responsabilidade Ética e Irresponsabilidade Moral

Artigo publicado na Revista Brasileira de Ciências Criminais
RBCCrim - ANO 22 - 109 - JULHO/AGOSTO 2014

Quando se torna necessário definir (ou redefinir) o conceito de responsabilidade como ferramenta dos saberes e das práticas de justiça – conceito esse tantas vezes confeccionado e estabelecido por nossas sociedades como instrumento de avaliação da conduta dos homens em relação ao que se lhes é prescrito como o mais útil –, precisamos antes de tudo e com a mesma necessidade reencontrar as condições e circunstâncias recorrentes sob as quais emerge o problema ao qual responde aquele conceito, para poder avaliar também sua pretensão de servir como um código de justiça.
Sabemos que a noção de responsabilidade, tomada já como elemento de solução de critério de julgamento, satisfaz fácil e frequentemente moralistas, juristas e ideólogos de todos os tipos como se respondesse a um problema natural e evidente.

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Mas se queremos pensá-la verdadeiramente, não podemos confundir:
1) a ideia de responsabilidade com a imagem que dela fazemos, isto é, como a imaginamos na medida em que seu sentido resulta das afecções de nossos estados de corpo e consciência, os quais se produzem em nós pelos encontros que efetuam a vida em sociedade e seus modos de relação que se inscrevem num triplo encadeamento: sensível, semiótico e afetivo;
2) tampouco podemos confundir a ideia de responsabilidade com o modo como simbolizamos seu sentido, conforme a um regime de linguagem em uso na sociedade. Pois uma coisa é pensar a noção de responsabilidade como um meio positivo de potencializar a vida e conquistar um modo ativo de existência, outra é tomá-la como uma ferramenta de controle da dimensão passional do vivo e empoderamento da vida separada de sua dimensão intensiva. Ora, é no interior de um certo código de signos que derivam categorias como as do eu e do outro e que operam como agentes conectores/interruptores de prepostos de controle responsáveis por capturar e submeter, disponibilizar e capitalizar as zonas virtuais e intensivas do vivo, isto é, da natureza não intencional. Funcionando em rede como agentes de controle no circuito de transmissão de ordem, é essa cadeia de prepostos que garante a coesão de uma sociedade que alimenta uma ordem extrínseca aos processos de potencialização do vivo. O eu ou preposto, opera como sujeito transmissor/receptor de comandos, a um só tempo repositório e repositor das cadeias de movimentos corpóreos e de sentidos incorpóreos. A responsabilização desse eu depende da construção de sua identidade. Esta é fabricada com fragmentos de código extraídos de uma ordem discursiva ou de um regime semiótico de subjetivação e de significação. Código que, ao mesmo tempo em que determina e garante a identidade do eu ou unidade do preposto, filtrando seus múltiplos estados de ânimo e de humor e recolhendo seus efeitos, torna-o necessariamente um delegado na decodificação e recodificação, um interpretante que diagnostica, identifica e enquadra o que deve passar ou ser retido na transmissão. Sua ascensão ou queda, isto é, sua inclusão meritória ou exclusão punitiva depende do grau de comprometimento responsável em conservar a unidade, coerência e continuidade do comando. É investindo na conservação da condição de coesão das correntes de poder que ele concorre para o aumento da integração das forças dispersas e difusas, fazendo-as convergir enquanto circulam através de um regime econômico de extração, distribuição e consumo de energia vital da sociedade. É essa necessidade de coesão que nos coage a afirmar ou negar. Mas como a consciência enquanto tal não ultrapassa sua natureza de efeito, ignora necessariamente sua causa. Interpreta estes sins e nãos como seus, isto é, como resultados apenas de uma suposta sua faculdade de livre-querer e de livre-decidir, isto é, como proposições da suposta faculdade de julgar de seu livre-arbítrio e não como uma vontade de poder.
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Entretanto, se nos tornamos capazes de dispor apenas da potência do pensamento sem nenhum apelo a qualquer tipo de crença, interesse predominantemente passional ou postulado ideal da representação humana – quando então realmente chegamos a pensar a condição humana como realidade que se produz em ato e não sem a nossa cumplicidade –, uma solução de tal forma destacada e abstraída de um problema tão complexo ao qual pretende responder – por tomá-lo por um problema universal que se supõe o mesmo para todos e que naturalmente ela transporia –, evidentemente não poderia nos bastar, sobretudo por seu grosseiro reducionismo e deformação. O pensamento não se ocupa de universais ou de ideias gerais senão quando é capturado e torna-se servente de algum tipo de poder (feito necessariamente de impulsos parciais) que quer se universalizar. Com função de capturar forças desejantes e modalidades de existência, essa tendência do pensamento reduzido à imaginação precisa fraudar e vituperar o real, tornando eminente e dominante a mentira do ideal, mentira expressa em toda forma intencional comum às existências reativas, e que por essa comunidade pretende ser considerada e respeitada como verdade superior, isto é, ser seguida e se sobrepor na relação com toda força intensiva. Toda forma universalizante envolve um valor regulador extrínseco, negativo da autossuficiência dos devires ativos, alheio e avesso aos processos, não de empoderamento, mas o que é totalmente diverso, de potencialização da vida.
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Em nosso caso e desse ponto de vista, portanto, jamais haveria um problema em geral ou natural ao qual uma ideia universal de responsabilidade corresponderia como solução. Somente ao retomarmos o meio, as circunstâncias e as motivações, – razões muitas vezes encobertas por que baixas a ponto de tornarem-se inconfessáveis, dissimuladas sob o manto sublime e mistificador dos valores universais –, portanto somente ao retomar todas essas condições segundo as quais o problema é posto multiplicando os pontos de vista que o colocam, é que poderíamos então reencontrar e questionar seus elementos constitutivos, apreender seus vetores de força, questionar as premissas das quais aquele conceito seria a solução. Por quem, como e em que termos o problema é colocado? Quais seus elementos? Para quê ele serviria? Qual o produto ou o efeito do modo como é concebido e como isso determina de antemão a natureza de sua solução? Que efeitos esta produz? Por que se torna um valor para os homens?
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Precisaríamos fazer ao mesmo tempo outras perguntas: quanto ao modo de colocar ou recolocar o problema, talvez pudéssemos nos tornar mais sensíveis a uma espécie de inspiração vital e alegre que nos conduziria a formar um conceito afirmativo acerca da noção de responsabilidade. Esposar uma responsabilidade não moral, mas ética! Não vincular-se a uma forma-de-dever-ser, mas reencontrar suas forças e pô-las em conexão com as potências virtuais da vida em sociedade. Não deixar-se medir pela distância que separa o conteúdo de uma vida real do fim de uma idealidade formal, o que apenas testemunharia sua infinita insuficiência. Ligar a vida que corre em nós à plenitude das intensidades livres que a preenchem necessariamente na dimensão sem falta de todo acontecimento enquanto tal! Tornar-se responsável pela sustentação da vida concebida como potência de acontecer ou criar os meios de existir ativamente é o mesmo que responsabilizar-se pela continuidade das variações intensivas que constituem a verdadeira autonomia de todo o vivo, não evidentemente como alguém sério e triste que carrega valores como a um fardo, mas como quem faz de cada acontecimento da vida em sociedade uma afirmação diferencial de si. Assim como um dançarino, que atravessado pelo ritmo que nele se afirma, confirma e se apropria do fluxo que o faz variar, diferenciar, amplificar e se elevar e, destarte, lança-se alegremente além de si fruindo as alegrias ativas de um devir ascendente. Como se o futuro o aspirasse para que se tornasse o que já é virtualmente – inspiração que conduziria os homens a investir em modos fortes e generosos de existência da vida em sociedade! Somente quem torna-se capaz de fazer um uso afirmativo de tudo o que acontece de bom ou de mal na vida e, com mais razão, na vida em sociedade, torna-se necessariamente cada vez mais forte e realmente livre em seu meio.
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Ou será que haveria apenas antes e sempre essa triste e melancólica ‘inspiração’, uma inspiração preconceituosa, recorrente e dominante, alimentada pelo cortejo das paixões tristes e pela crença supersticiosa que faz do mal uma substância e da falta um pecado, que invocaria a noção de responsabilidade como uma substância moral?
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Quando a vida é condenada a efetuar-se num meio cujas relações de sociabilidade se tecem sobre um fundo negativo e rumoroso de miséria, medo, insegurança e violência, coagida a fazer retornar e ressoar inevitavelmente sobre si essa matéria residual que a preenche, excitando histericamente e mobilizando e tornando paranoico o campo afetivo dos homens, – como essa vida, já socialmente tornada fraca, temerosa e ameaçada, não seria coagida a clamar por formas duras de responsabilização moralizante, para poder identificar, enquadrar e punir todos aqueles que perturbam e ameaçam suas regras de conservação e desenvolvimento, sua ordem de “paz” e seu modo “dócil” e gregário de vida em sociedade, a um só tempo compassivo e complacente?
Fundo rumoroso que inspira, inflaciona e faz proliferar pré-conceitos e pré-julgamentos. É sobre ele que se constitui todo um mundo de trapaças, que faz da moral e do bem um meio de propagar e prolongar a vida fraca, tornando-a um negócio lucrativo.
Mas não obviamente sem propagar cotidianamente o ressentimento, despejando quase que silenciosamente seu triste ódio impotente sobre toda vida forte e alegre, culpabilizando, judicializando e exigindo reparação de todo modo intensivo de acontecimento, espalhando seu envenenamento a todo o mundo vivo que jamais poderia satisfazer suas demandas, pela simples razão de serem sempre imaginárias.
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Ora, e sobre qual outro ‘fundamento’, senão sobre esse fundo de miséria afetiva cotidianamente renovado, a governamentalidade gestora de nossos desejos e que comanda nossas sociedades poderia servir-se da responsabilização jurídica como de um dispositivo de biopoder, isto é, de controle e governo da vida? E a que serviriam os dispositivos de identificação e responsabilização, senão como armas que respondem e pretendem confrontar o pressuposto mítico de um fundo negativo da natureza animal e passional do homem, – aquele de uma queda inconsciente ou buraco “natural”, o de uma falta “original” de finalidade dos seus impulsos, “constitutiva” da “carência” do desejo humano –, e se pretenderia assim erigir esse pilar estrutural do direito dito positivo como mais uma máscara democrática do poder que a todos salva? Do que exatamente e quem em nós precisaria ser salvo ou resgatado?
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Poderíamos seguir essa cadeia de ideias inadequadas e paixões tristes e questionar o que é considerado contrário ao sentimento e à forma da responsabilidade moral. Perguntar-se-ia então em quais circunstâncias e condições a conduta ou comportamento de alguém seria diagnosticado como corrompido e nocivo, um corte ameaçador, uma interrupção dos circuitos de coesão social e portanto taxado de irresponsável?
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Encontrar verdadeiramente o problema – para poder avaliar em que sentido a resposta a ele frequentemente dada pelos membros mais ilustres de uma sociedade pode simplesmente repetir ou reformar posturas, conhecimentos e procedimentos demandados pelo senso comum, ou então criar realmente um sentido e um valor de existência em sociedade –, implica ao mesmo tempo pôr em questão o próprio querer daquele que assim se dispõe. Somente encontra os elementos do problema sob as pretensas respostas dadas a ele quem não apenas dele se aproxima ou o encara, mas sobretudo se permite ser atravessado pela matéria da qual tal problema é feito. É essa matéria que necessariamente põe nosso modo de querer em variação, logo põe também nosso próprio modo de vida em questão.
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Sentimos que é necessário investir muito mais no questionamento dos modos de colocar os problemas que nos afligem, do que insistir na urgência e necessidade de soluções. Deslocar portanto, como diria Bergson, a verdade das soluções para a verdade ou falsidade dos problemas bem ou mal colocados, cujas respostas podem reincidir num circulo vicioso. Mais urgente portanto seria dispor-se a fazer variar seus modos de desejar, sentir e pensar ao encarar o problema daquilo que pode ser responsabilizado e/ ou sancionado do ponto de vista do que é justo, tanto no que toca os indivíduos na relação consigo e com os outros quanto o que toca a sociedade na relação consigo mesma e com os seus membros.
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Frequentemente magistrados e demais tipos que ocupam posições eminentes nas instâncias representantes do saber instituído ou do poder estabelecido, fazem coincidir o que está além da fronteira do tolerável pela sociedade com todo tipo de afetos, forças ou tendências humanas que não aderem ou servem ao cânone civilizatório do comportamento com vínculo intencional. E tratam essa zona virtual – mas real e necessária a toda e qualquer existência, necessária principalmente aos modos ativos e criativos de existir –, senão como culpável, ao menos como culpabilizável. Logo, como suspeita, suscetível de cumplicidade e complô com tudo o que pode haver de intolerável no homem. Tratam, portanto, com uma insidiosa malevolência e fraudulenta desconfiança as dimensões intensivas da vida em sociedade, isto é, precisamente aquelas dimensões essenciais para as quais é impossível operar em vista de um fim.
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Como evitar que uma sociedade formule o problema da “responsabilidade” a partir de premissas que dependem de modos imaginários de pensar, banhados em superstições e preconceitos que depreciam e tornam abjetas as forças intensivas do homem, pelo simples fato delas permanecerem inconscientes, desconhecidas, imprevisíveis e por isso mesmo sem utilidade?
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Porque alimenta-se o hábito de tudo remeter ao plano moral, quando se trata de interrogar qual responsabilidade se espera de um homem? A essa pergunta poderíamos dar respostas múltiplas. Mas no espaço desse artigo apenas sinalizamos, por ora, que, por mais que ele seja capaz de se responsabilizar e ser responsabilizado por suas ações, paixões e ideias, isto é, por tudo aquilo que dele deriva uma vez que é dotado de um poder de afetar e ser afetado tanto em relação ao corpo, como também em relação ao pensamento e sobretudo em relação ao uso que pode fazer daquilo que lhe acontece de bom ou de mau, de útil ou de nocivo, em relação a si e aos outros, essa condição não o obriga a aderir e construir nele um preposto moral que deveria imperar sobre seu corpo e seu inconsciente como principio regulador de um legítimo sujeito de desejo.
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Poderia assim problematizar-se também, a título de contraponto, a natureza e o grau de engajamento de um indivíduo junto à sociedade e seu Estado e vice-versa.
O que um indivíduo poderia buscar ou esperar de uma sociedade que diz ter direito sobre ele e dele exigir um comportamento comandado por uma mente responsável?
O indivíduo poderia esperar, por exemplo, que a sociedade forme um meio aliado, onde a vida de cada um torna-se mais forte, protegida e acolhida, mais segura e com direito a um futuro ascendente; um meio aliado promotor de oportunidades de crescimento e expansão da própria vida. Mas sobretudo poderia esperar também que a sociedade investisse em um meio comum imanente aos modos ativos de existir que ultrapassasse a dicotomia rasteira entre o público e o privado, entre o individual e o coletivo, entre o particular e o universal, em direção a um plano social de consistência afirmativo e não neutro, um meio comum de composição de potências singulares e processos de singularização regulado por regras de passagem como função não de poder mas das potências do vivo.
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A sociedade e seus institutos esperam dele ordinariamente, por exemplo, não só que tome consciência de que é um devedor da ordem social que o acolhe como um dos seus, pelo grau de reconhecimento ou consciência que tem ou pode ter de sua dívida e disposição de pagar. Espera vê-lo retribuindo os benefícios e restituindo os créditos recebidos a priori para financiar seu crescimento e formação com seu comportamento responsável, não apenas como digno e honesto fruidor dos benefícios da vida em sociedade, mas, como seu beneficiário, poder apreciar os serviços de um soldado tão capaz de compor seus quadros como de se engajar no combate contra esse fundo caótico que seria o princípio de toda corruptibilidade das condições de coesão social.
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Como aqui se conjuga conduta irresponsável e conduta injusta em relação à própria ordem dos valores sociais, trata-se então de traçar os limites que separam as ações – tidas como louváveis, desejáveis ou livres, úteis, necessárias até o limite das toleráveis –, das censuráveis e proibidas, constitutivas das infrações.
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É recorrente e dominante, nas nossas sociedades, um movimento circular e vicioso do desejo separado do que pode, e portanto rebaixado, que precisa fazer do desejo intensivo – onde a intencionalidade, boa ou má, é sempre fictícia e inútil –, uma zona permanente de periculosidade, cuja ameaça deve ser previamente evitada. Há nesse sentido um coro de murmúrios e gemidos, que não ousa confessar senão em sussurros inaudíveis, sua crença velada na sentença que o guia, ao mesmo tempo em que tal máxima não para de ameaçar cair sobre sua cabeça como uma guilhotina virtual: “somos culpados até que se prove o contrário”. – E sem dúvida seria preciso acrescentar: “culpados das forças diferenciantes de nosso desejo, que nos constituem como capazes de criar realidade e valor, e que jamais aderem a qualquer finalidade ou intencionalidade, seja ela boa ou má”. Daí o enquadramento dessas forças como irremediavelmente perversas. É com essa sentença de morte virtual que se pretende manter sob controle tudo o que desvia e ameaça corromper os laços de coesão envolvidos nas relações de sociabilidade. Políticas preventivas de controle com injeções de doses variáveis de insegurança e violência institucionais, antes que a atualização das zonas sem rosto de nós mesmos possa surpreender fazendo transbordar o caos.
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Esse movimento circular vicioso que funda a identidade do eu pelo eterno retorno da mesma falta (expresso pela relação: desejo como falta de objeto x objeto impossível de desejo), deve lançar mão do mecanismo da responsabilização do desejo para ao mesmo tempo contrapor-se aos desvios provocados pelos assaltos e assédios dos impulsos de um desejo humano diagnosticado pelo “sistema do juízo” como perverso. Desejo molecular que insiste em não se deixar molarizar nem moralizar ou domesticar, pois não se constitui pela falta de finalidade, mas pelo acontecimento diferencial da vida que nele excede. É a expressão pura da vida e da necessidade absoluta da potência de acontecer que a atravessa, tanto produzindo necessariamente a si mesma pelo retorno da força diferencial sobre si, quanto fruindo a alegria de si como fonte e retorno da energia de criar.
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Vemos já a necessidade de definir melhor os elementos correlativos da noção de responsabilidade. Para que um ato possa ser qualificado como responsável, seja ele a expressão de um comportamento ou conduta, a de uma ideia ou ação, pressupõe-se a existência de uma causa e de um sujeito, um agente que delibera e o executa passível de responsabilização. Precisaríamos então determinar a natureza do “agente”, “autor” do ato. Precisaríamos ainda que algo dele “permaneça o mesmo” ao longo do processo, antes, durante e depois de sua realização, isto é, que haja uma continuidade de natureza entre o autor do ato e o mesmo autor enquanto consumidor ou fruidor do seu resultado simultaneamente consumido e compartilhado com a sociedade. Também perguntamos o que pode o efeito produzido, ou seja, o valor do sentido dominante de continuidade de si na relação com os outros, disponibilizado e posto em movimento com a realização do prometido.
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Mas a irresponsabilidade percebida a partir do senso comum dos nossos contemporâneos e definida como um ato jurídico, isto é, a irresponsabilidade atribuída a atos e comportamentos passíveis de enquadramento e punição, é percebida de modo abstrato e genérico. É irresponsável todo ato que é interpretado como uma ameaça ao sistema de valores e à coesão dos laços constitutivos de nossa sociedade, por seus poderes, saberes, institutos e costumes nela dominantes, ainda que esse mesmo sistema de valores a esteja levando irremediavelmente para a decadência. Ou seja, não se considera o sistema de valores de uma sociedade, suas instituições, seus postos de comando e seus ocupantes violentos e irresponsáveis, mas muitas vezes de modo cego e unilateral, é ela e seu sistema de valores que pretendem sempre dar a última palavra e consumar o ato reparatório e restaurativo em função dos pretensos ataques e corruptibilidades que sofre ou que interpreta padecer, e por isso não abre mão de exercer seu direito soberano de reparação sobre uma sua parte, indivíduo, grupos ou movimentos, seu irrevogável direito de punir.
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Chegaríamos mesmo a quê? Qual seria nossa conquista? Chegar a nos tornar prepostos de poder, travestidos de sujeitos de nós mesmos, quando somos levados a confundir o nome próprio de nossa singularidade com o pronome comum da primeira pessoa do “singular”, um eu universal, nossa pura consciência, a de um dever-ser-universal, que não passa de consciência da mais pura insuficiência de ser, que mistifica o mal intensivo sem conseguir no entanto extirpá-lo, é essa mesma consciência do sujeito de desejo, do sujeito de interesse, do sujeito de direito, do sujeito moral, do sujeito de conhecimento, do sujeito autônomo! Autônomo? Eis nosso homem superior, como bem o dissecou Nietzsche, um sujeito assujeitado, o escravo de si mesmo.
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Retomando a posição do problema: trata-se de tornar alguém responsável por suas próprias forças – força de trabalho ou força de capital, isto é, como capital humano; força de sentir, de perceber, de agir, de imaginar, de memorizar ou registrar, de simbolizar, de mover e ser movido, de produzir, fazer circular, distribuir e consumir. Para quê? Para que delas possa dispor. Como? Delas tendo controle! Com o quê? Com a instauração de uma instância dentro de nós, um preposto de poder e de saber, um representante do valor dominante, um demandante privilegiado. Dispor delas para si mesmo? Não, obviamente não! Para que então? Para servir, obviamente!
Para tornar-se função! função de um corpo social, ainda que com o convite de recebê-la como recompensa, por mérito. Tornar-se um empoderado como indivíduo e uma autoridade como sujeito moral e de conhecimento. Por reconhecimento pela conquista de um corpo organizado e eficiente, de um juízo de conhecimento verdadeiro e competente e sobretudo a conquista de um juízo moral responsável e responsabilizador. Incorporando modelos torna-se cifra das curvas estatísticas de normalização, seja dos desejos, pensamentos ou comportamentos. Eu, um código de expressão cifrada de atos, ideias e comportamentos, numa palavra, normalizado e normalizador.
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O modo de proposição ou colocação de seus elementos envolve os modos de sentir, perceber e desejar, de pensar e de se comportar daquele que o coloca, pois que inexoravelmente terão implicação direta na composição dos elementos da resposta. Ou seja, a natureza (justa) da proposição conceitual e postural sobre a justa relação entre indivíduo e sociedade, que por isso também deve ser uma proposição que contemple o bem, o útil e o saudável para uma vida em sociedade pautada na concepção do bem, do útil e do saudável daquele que a concebe e daqueles aos quais é proposta, depende do modo de vida e valores de seu propositor, isto é, do tipo de vida que é capaz de conceber, segundo o modo de vida que pratica, como verdadeira vida.
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Mas quando percebemos mais de perto o problema, isto é, quando nos deixamos atravessar pelos vetores de força que o constituem, sentimos que ele não é simples, nem pode ser colocado nos termos do Bom-Senso e do Senso-Comum em uso na sociedade em questão. O problema é complexo e como tal tem múltiplas abordagens. Mas para que não sejamos afetados por ele de modo apenas abstrato, sua multiplicidade impõe-nos remeter os modos de colocá-lo e dispor seus elementos aos modos de vida que levamos e cultivamos em sociedade e, mais ainda, questionar quem em nós precisa ligar-se ao valor da responsabilidade, qual responsabilidade serviria a esse “quem” e com qual objetivo ela seria legitimada, cujos efeitos retornariam em forma de “qual” benefício sobre “quem” em nós?
A irresponsabilidade seria então aquela de um agente cujo ato ameaça ou quebra o circuito continuo de transmissão de sentidos incorporais de uma cadeia semiótica que governa o tempo dos homens, de transmissão de movimentos corporais proporcionais de uma cadeia de ações-paixões-reações que governa o corpo e os gestos dos homens, e sobretudo a quebra afetiva que desobriga-o de atender a um fim externo que o aliena e o torna função de um poder que também, se fosse correspondido, o autorizaria e o empoderaria.
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Assim chegaríamos àquilo que nos é demandado essencialmente. Além da demarcação das zonas proibidas da lei, além também da demarcação disciplinar do dever que engaja a vida em um processo de normalização das condutas, que torna a vida submissa à norma, – o que nos é demandado essencialmente como beneficiários de uma sociedade consumidora de comportamentos de liberdade, como diria Foucault, mas não sem segurança, é o controle e gestão dos desejos.
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Aderimos ao controle e gestão dos desejos, nos comprometemos e responsabilizamos com e por uma sociedade de controle da vida, na mesma medida que percebemos que a assunção da responsabilidade dessa tarefa coincide com a fruição de uma forma que recompensa e preenche nosso querer, esse desejo sem potência, cujo governo de si coincide com o governo dos outros, um governo sem potência, um governo não da vida alegre exercido pelas potências da vida para a vida, mas um governo de poderes banhados na tirania das paixões tristes que tem a pretensão e a soberba de querer se exercer sobre o incontido de todo vivo.
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Poderia a responsabilidade ser medida pela capacidade de quem faz uma promessa se manter em seu propósito e permanecer invulnerável, apesar de todas as seduções, coações e intempéries encontradas ao longo do caminho para desviá-lo de sua meta? Mas isso dependeria da natureza do “alvo”: seria ele uma memória de futuro ou uma projeção melhorada e idealizada do que buscamos como o melhor dos mundos possíveis para nós mesmos e para a humanidade?
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Toda responsabilidade implica um promessa de continuidade, isto é, uma produção de postura cujo efeito responde à causa de uma memória de futuro, um tornar-se contemporâneo do futuro tensionado que nos arrebata, intensificando nossa potência de existir e de continuar a si mesmo no processo de conquista das próprias forças que estão de certo modo desapropriadas de nós mesmos.
Se conquistamos o pensamento pela mente, encontramos as potências de criar futuro como excedente do presente. Um tal excedente de forças poderia determinar um conceito outro de responsabilidade, cujo valor exprimisse um sentido plenamente afirmativo dos devires: somente uma grande confiança no acontecimento, – proveniente de uma percepção profunda que sabe encontrar a alegria inclusive no horizonte da dor – acontecimento constitutivo de todo ato pleno de existir, poderia inspirar o traçado de uma razão positiva de continuidade plena de linhas de diferenciação das potências intensivas do homem, e poderia sustentar tamanho sim a existência com tudo que ela possa trazer de problemático!
Definida pela força de criar memória daquilo que queremos nos tornar, a responsabilidade poderia, portanto, começar com um tensionamento de nós mesmos, com um movimento tendencial de tornarmo-nos diferentes e nos distanciarmos não dos outros, mas de nós mesmos, de transpor essa distância apenas na medida em que nos produzimos por aquilo que nos diferencia. O ato de prometer nos vincula a uma causa, e só termina com seu cumprimento. Seu acabamento, nesse caso, se confundiria não com o ato que nos faz atingir um fim ou limite, mas com o ato que conclui a construção de um tipo de ponte, que faz transpor novos limiares de intensidade de nossas forças, como passagens de si mesmo para uma capacidade maior de agir, aquela de uma potência que cresce em nós por amor de suas virtualidades diferenciais, como uma produção a um só tempo ética e estética de si mesmo.
Bibliografia
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Nietzsche, F. W. Genealogia da moral (2.ª dissertação). São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
Spinoza, Baruch. Ética. ed. bilíngue – livros III e IV. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

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